terça-feira, 22 de abril de 2008

Dentro do mal, há pior

“Joe Berardo quer falar com Vieira sobre desgraças”
in DN, 15/04/08

- Tou, Luís Filipe?
- Sim
- É o Joe.
- Ah, Joe, então tudo bem?
- Tudo bem? Achas que está tudo bem?
- Não, eu sei que não... É uma expressão.
- Tá tudo uma desgraça. E era precisamente sobre desgraças que eu te queria falar.
- Ah... pois, isto da violência no Tibete é um atentado contra os direitos humanos e a comunidade internacional devia fazer alguma coisa. Eu já assinei a petição na net...
- Ó Luís Filipe, tás parvo ou quê? Com a nossa desgraça aqui tão perto e tu falas-me no Tibete...?
- Ah... estás a falar do desemprego e da economia nacionais... pois, eu bem digo aos meus filhos para pouparem, nunca se sabe o dia de amanhã, as taxas de juro estão sempre a aumentar e os bancos querem é sacar o deles...
- Olha lá, mas tu não percebes que a desgraça começa em casa. Em casa, pá!
- Ahhh, deves estar a falar do caso Esmeralda. Coitadinha da miuda, anda ali, vai não vai, com os pais que a acolheram de um lado e os pais biológicos do outro. Isto não pode fazer bem a uma criança...
- Ó homem, mas tu caiste e bateste com a cabeça, ou quê? Tu sabes quem és? Como te chamas?
- Luís Filipe. Aaaaaaaahhhh, estás a falar do PSD, da demissão do gajo de Gaia e da crise instalada. Olha, a Ferreira Leite já avançou. Sinceramente pá, eu acho que pior não pode ficar...
- Olha, eu também não!
- Tou, Joe? Joe?
Olha..., desligou.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Eu confio nos Centros de Inspecção

“Porque ninguém melhor do que nós lhe oferece a garantia de confiança absoluta, pomos ao seu dispor toda a comodidade e conveniência, para que fique tranquilo quanto à inspecção do seu veículo.” In postal do Centro de Inspecção Automóvel

Homens a ler o jornal, a fumar cigarros, a discutir a bola, a limpar os carros, a colocar água ou óleo nos devidos compartimentos e a fazerem outras tarefas de homem, enquanto esperam pela indicação da matrícula do seu veículo automóvel no placard electrónico. Lá dentro, motores a um nível apreciável de rotações, escapes a esfumaçar, vozes graves que gritam, chiar de travões, carros a chocalhar.
O Centro de Inspecções é capaz de ser o que muito boa gente amante de carros, velocidade e barulho, considera o céu. Para muita alma que aí anda a coisa deveria ser mais ou menos assim. O pessoal morria e seguia de carro para o Centro de Inspecções de Almas e Automóveis. Num grande pavilhão cheio de aparelhómetros estranhos, São Pedro, o Diabo e ocasionalmente Jesus, de bata de mecânico com um logo dos anos 70 nas costas, submeteriam os veículos das mais variadas cilidradas e os espíritos das mais variadas experiências aos mais completos testes. Frenómetro para o primeiro, pecadómetro para o segundo, teste às luzes do primeiro, exame às tentações do segundo, e por aí fora... No final, Pedro, de esferográfica na santa orelha, aproximar-se-ía e diria qualquer coisa como “O seu veículo está ok, só precisa de substituir as escovas do limpa pára-brisas. Já a sua alma está a libertar gases nocivos superiores ao aceitável e precisa urgentemente de um jogo novo de boas acções. Tem 15 dias para tratar disso, volte cá depois para ver se está tudo bem.” E no entretanto veículo e alma andariam para ali numa estrada nacional 1, o equivalente a um purgatório, até conquistarem o direito ao selo de aprovado...
Para mim, que não sou amante de carros, velocidade ou barulho, o Centro de Inspecções é um sítio curioso, onde se registam das maiores concentrações de testosterona por m2. Quando uma mulher por ali passa, corre sérios riscos de sair grávida ou camionista. Resta-me esperar uns dias para ver se me nasce, sob os pés, um camião TIR com luzes de natal e um poster da Samantha Fox, ou se dá positivo o teste da Predictor.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Orgulho e Preconceito

"Nunca me considerei racista. Não tenho qualquer ódio primário à raça negra, mas tenho orgulho em ser branco", assegurou hoje Mário Machado, ouvido no Tribunal de Monsanto, em Lisboa, onde responde com 35 outros arguidos por acusações de crimes de discriminação racial, posse ilegal de armas, distribuição de propaganda nazi, entre outros delitos. in Público, 09/04/08

Na saudosa série Rua Sésamo havia muitas coisas curiosas. Havia uma Alexandra Lencastre novíssima, um Vítor Norte carpinteiro, um monstro das bolachas comilão, um conde drácula que carregava nos r’s, um joão esquecido que chagava a molécula à amiga, um egas e um becas que estavam sempre a discutir, um popas chato como a potassa, and so on, and so on...
Havia também uma vaca que cantava ter orgulho em ser isso mesmo, uma vaca. Não uma vaca leiteira. Não uma vaca charolesa. Não barrosã. Não uma vaca suiça. Não uma vaca açoriana. Uma vaca, apenas. Para que os humanos ponham os olhos nesta lição bovina de afirmação, dignidade, paz e tolerância, aqui fica.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Se era pra isto, não me convidavam


“Catorze membros de uma seita ortodoxa russa entrincheirados há 5 meses num abrigo subterrâneo, à espera do fim do mundo, abandonaram o refúgio, onde estão outros 14”
in Global, 02/04/08

Ó Kuznetsov, então nunca mais?! O fim dos tempos tá próximo, isto é coisa pra três 15 dias, no máximo, dizias tu, e vai-se a ver já lá vai quase meio ano... Achas bem? Temos a vida toda empatada por tua causa! Os miúdos já perderam o ano e a Axana que tinha um trabalho tão jeitoso e o patrão nem era mau... Agora o mundo não acabando, com esta crise quero ver quem nos arranja trabalho. Já devo ter o banco à perna por causa do atraso nas prestações. E está quase a terminar a primeira fase de entrega do IRS. Cá pra mim ainda vou ter de pagar multa... Saíste-me melhor que a encomenda, ó profeta da tanga! Ainda por cima estamos praqui fechados num buraco sem tv cabo, ó o caraças! Não sei quanto tempo mais consigo ver a Tertúlie Cor de Rosev e as Tardevs da Júlia. E batatas fritas como eu em casa!

terça-feira, 25 de março de 2008

Reféns electrónicos

Gabinete de Atendimento das Finanças.
Ao meu lado, uma conversa sobre uma senha electrónica perdida:

- Vamos lá ver se a senha lhe chega a tempo... Demora, no mínimo, 5 dias úteis.
- Então o que é que eu posso fazer?
- Olhe, reze. Para que a senha lhe chegue a tempo... Bom, aqui no computador tenho uma pergunta de segurança. Sem responder não podemos dar-lhe a sua senha. A pergunta é: “Qual é a sua série televisiva preferida?”
- (silêncio)
- Esta pergunta não é fácil. Podia ter escolhido outra. A minha é sobre cores, por exemplo, é mais fácil...
- Mas eu não fiz nada disso, não escolhi pergunta nenhuma.
- Mas a pergunta está aqui! Se não responder não conseguimos fazer nada.
- Eu sei lá...
- Pois, é um bocado vago. Pode ser qualquer coisa, de agora ou mais antigo... Só se for tentando, escrevendo nomes de séries, sei lá.
- Tou tramado... Não me pode dar uma pista?
- Eu não! Se fosse cores era mais fácil...

quinta-feira, 6 de março de 2008

História de Portugal com ASAE

“Os excessos da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) foram, ontem, admitidos pelo socialista Jorge Seguro.” in DN, 06/03/08

Agosto de 1385, sete soldados fogem do campo de batalha e escondem-se numa casa vazia que serve de padaria. Quando encontra os inimigos castelhanos encolhidos no seu forno, Brites de Almeida defende-se a si e à pátria com monumentais pazadas. A vizinha do lado ainda lhe grita “Olha a ASAE, mulher!”, mas a padeira, cega de patriotismo, quer lá saber. No dia seguinte Brites é detida e o seu negócio fechado, qual proprietária da ginginha do Rossio.
Séc. XIV, manhã de Inverno, uma bondosa rainha enche o regaço do seu vestido com pães, para os distribuir pelos pobres. Ao ser surpreendida pelo rei, que lhe pergunta onde vai e que leva no regaço, a rainha responde “São rosas, Senhor!” e transforma os artigos de panificação em cheirosas flores. O soberano fica a braços com uma crise. O 24 horas medieval noticia o grave incumprimento das normas de higiene e segurança alimentar. E a oposição aproveita o episódio para gerar polémica. Para dar o exemplo, o rei é obrigado a mandar a esposa para o exílio. Mas a rainha isabel não se livra do cog-nome “a badalhoca”.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Agora Escolha


“Adam Savage and Jamie Hyneman, os Caçadores de Mitos do Discovery Channel, decidiram tentar comprovar a fiabilidade das experiências de MacGyver, para assinalar o centésimo episódio do programa.” in DN, 24-02-08

Se excluirmos a fadista Mariza, o MacGyver é, para mim, a única pessoa capaz de conduzir os destinos da nação ou, como vulgarmente se diz, “fazer este país andar para a frente”.
Proponho portanto que o façam regressar à televisão portuguesa, numa nova série em que a sua missão seria resolver os problemas do país. Ao início de cada tarde, os portugueses poderiam escolher entre 2 episódios no também regressado programa “Agora Escolha”. A inigualável Vera Roquette dar-nos-ía a escolher: “No Bloco A, MacGyver faz a reforma da saúde recorrendo apenas a uma gilette, ao Sr primeiro ministro e ao DVD da primeira série de Dr. House. No Bloco B, veja como MacGyver põe fim à crise da educação, munindo-se tão somente de um canivete suíço, um Bolicao e um CD dos Morangos com Açúcar”.
E enquanto votavamos assistiríamos a mais um episódio da Ana dos Cabelos Ruivos, claro.